Pedaços de Alcongosta

Instantâneos da Terra da Cereja

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Ricardo Gonçalves passou na semana passada por Alcongosta, a Capital da cereja, mas também Capital da Cestaria e do Esparto, e deixou este registo aqui, que reproduzo no Pedaços de Alcongosta. 

Cesteiros de Alcongosta: os dias do fim


Na era em que vivemos, em que os modernos meios de comunicação nos oferecem toda a facilidade de assistir a fenómenos que noutro tempo nos seriam completamente alheios, ter a oportunidade de assistir ao vivo aos últimos momentos de uma arte toma contornos de irónico privilégio.Não que me dê motivos de contentamento, bem pelo contrário, mas é raro e genuíno. Em particular quando penso em como, todos os dias, nos vai entrando pelos ecrãs dentro tamanha enxurrada de notícias da extinção daquela espécie, destes saberes, daquelas línguas, destoutras culturas e monumentos que o fenómeno não só se banaliza como até parece ser pouco real. No fim de contas, são histórias que se passam lá longe, do outro lado do ecrã, nada têm que ver connosco.

E é justamente lá longe, do outro lado da Cova da Beira, sem ter muito que ver comigo, que, aninhada na encosta da Gardunha, se encontra Alcongosta, uma aldeia do concelho do Fundão que vim a saber ser local capital de uma arte cesteira que se aproxima vertiginosamente dos seus últimos dias. Aqui produzem-se há gerações uns cestos que não são uns cestos quaisquer. Uns cestos que desde miúdo recordo serem comuns em casa dos meus avós, como aquele com que a minha avó desaparecia para regressar passados alguns momentos com ele cheio de cerejas vermelho-preto para o lanche da garotada lá de casa. Julgara-os banais, mas no fim de contas, eram bem especiais.
Foi levados pela ideia de que não seria tarefa complicada a de fazer uns cestos destes, à maneira de trabalhos manuais caseiros, que rumámos a Alcongosta, numa soalheira tarde de maio. Com a Gardunha a pintar-nos o caminho com o verde elétrico dos soutos recém-floridos misturado nas manchas verde escuras dos cerejais já pintalgados do vermelho das cerejas maduras, lá fomos, à descoberta de alguns dos artesãos da mão-cheia que ainda se dedica a esta arte. Na verdade, é caso para dizer que não sabíamos ao que íamos!

Chegados à aldeia, fomos encontrar na sua oficina o mais velho dos artesãos que ainda trabalha os cestos — o Sr. Luís ‘Polícia’, de 83 anos — e de seguida detivemo-nos com um dos mais jovens — o Sr. Luís Paulo, de 70 anos. O que pensávamos pudesse ser uma simples compra de material e umas breves conversas acabou por se tornar numas pequenas entrevistas com compra de cestos mas nenhum material. Não se dê, porém, o tempo por perdido! Não podia ser simplesmente chegar, comprar as fitas de madeira com que se tecem os cestos e zarpar, pois não? À conversa com os dois artesãos percebemos o porquê e descobrimos porque é esta uma arte que se está a extinguir na localidade.

Em Alcongosta, aldeia antiga, o trabalho dos cestos tornou-se, ao longo dos séculos, uma parte estruturante do tecido económico complementando com naturalidade o trabalho da produção da cereja, que é a produção pela qual há muito esta aldeia é mais conhecida. Uma das provas dessa complementaridade está na forma como ainda hoje cerejais e soutos abundam nas encostas da Gardunha.Os cestos, fabricados com madeira de castanheiro bravo, eram usados para a apanha e o transporte da cereja (assim como dos demais produtos agrícolas). Hoje em dia, muitos produtores privilegiam ainda o uso destes cestos para a apanha da cereja, pois, por serem de madeira, são mais macios e não magoam a fruta e porque permitem um melhor arejamento, mesmo das cerejas que estão no fundo. Infelizmente, os cestos já não colhem a preferência de todos os produtores. Como em tantos outros aspetos da vida quotidiana, o advento do plástico e de outros materiais para o fabrico de recipientes mais baratos implicou a redução da utilização dos recipientes tradicionalmente produzidos em Alcongosta. Com o tempo, as dezenas de artesãos que outrora animavam as ruas da aldeia com as suas oficinas foram desaparecendo e não restam hoje mais do que 5 ou 6.


A diminuição dos artesãos correspondeu naturalmente à redução da procura, mas não é de desprezar o papel desempenhado pela dureza do trabalho associado não só ao fabrico dos cestos propriamente dito como também à preparação da matéria-prima necessária.
É um mester exigente o de cesteiro! Entre as suas várias etapas, contam-se a de ir recolher a madeira apropriada nos soutos espalhados pela serra, trabalho esse que deve ser feito durante o inverno, que, como se sabe, nestas latitudes não é meigo. Depois, a madeira tem de ser enterrada para se conservar fresca até ao momento de ser trabalhada. Ao longo do ano, à medida que vai sendo precisa, desenterra-se a madeira, à qual de seguida tem de se tirar a casca. Esta operação envolve levar a madeira a um forno. Retirada a casca, está pronta para ser reduzida às fitas que hão de dar corpo aos cestos. Este tarefa, feita com recurso à mula (um móvel de apoio) e com o cutelo, é trabalho que deixa marcas — os cortes nas mãos e pernas tornam-se parceiros de longa data. Só então está preparado todo o material para iniciar o fabrico dos cestos. É um trabalho meticuloso que requer paciência, rigor e uma certa dose de vontade de sofrer.
Olhar as mãos destes artesãos e ver dedos quase deformados de estarem tão calejados de trabalhar dia após dia a áspera madeira é toda a prova de que preciso.
Percebe-se desta breve descrição a razão para termos voltado de Alcongosta sem a madeira que queríamos comprar. Quando vivemos habituados a ir ao supermercado e a ter tudo disponível nas prateleiras é fácil esquecer que nem tudo é assim, especialmente no que a trabalhos artesanais diz respeito… Mas não é caso para desistir! Efetivamente, ver com os próprios olhos os últimos artesãos desta técnica, mesmo não sendo algo que me dissesse diretamente respeito, confere uma força inesperada à sensação de perda. Como se fosse algo pertencente ao património da minha família ou da minha terra. Por isso, mesmo sabendo que estes cestos são produzidos noutros locais do país, persuadi-me que é fundamental que esta técnica seja aprendida por mais pessoas ou, pelo menos, que se familiarizem com estes materiais. À vinda de Alcongosta, trazemos os cestos nas mãos e no espírito uma sensação de responsabilidade: talvez evitar que estes cestos não se tornem apenas memórias em fotografias ou textos.


1 comentários:

Luantes Luis Antunes disse...

Realmente não sou como fui noutros tempos um assiduo visitante de Alcongosta e seus cesteiros, mas continuo a visitar essa linda aldeia através dos Pedaços de Alcongosta
Passo por aqui sempre que tenho oportunidade
boa continuação

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